Médico comenta transmissão de células cancerosas de mãe para filho.
Possibilidade, muito incomum, nunca havia sido documentada.
Alteração cromossômica ‘escapou’ da vigilância imunológica.
Cientistas japoneses e britânicos documentaram um caso de tumor maligno que foi transmitido de mãe para filho ainda dentro do útero. Essa possibilidade, muito rara, nunca havia sido documentada. Os pesquisadores conseguiram por meio de técnicas de identificação genética das células a comprovação da origem materna do tumor.
Os bebês estão protegidos dentro do útero da mãe por vários mecanismos fÃsicos e biológicos que chamaremos de barreira placentária. Mesmo infecções que a mãe apresente durante a gravidez, dependendo da época da gestação, não se transmitem ao feto.
No caso em questão, um bebê, nascido na época certa, de uma mãe jovem, de 28 anos, foi diagnosticado aos 11 meses de idade com um tumor na mandÃbula e gânglios que levaram ao diagnóstico de leucemia.
Sua mãe, que havia feito um acompanhamento pré-natal correto e sem alterações nesse perÃodo, por sua vez, havia apresentado complicações hemorrágicas 39 dias apos o parto com diagnóstico também de leucemia, nunca antes percebida.
A análise genética das células tumorais da criança mostrou um padrão diferente das outras células de seu corpo que tinham material genético do pai e da mãe.
O tumor trazia alterações nos cromossomos que foram também encontradas nas células leucêmicas da mãe, fechando assim o diagnóstico de que estávamos diante de um tumor que havia conseguido passar a barreira placentária e se instalar no bebê.
A literatura cientÃfica registrava apenas 17 casos suspeitos até esse momento, todos de melanomas, linfomas e leucemias. Esses tumores têm como caracterÃsticas células que se reproduzem muito rapidamente.
O que os cientistas puderam avaliar foi que a alteração cromossômica que as células tumorais apresentavam foi capaz de escapar da vigilância imunológica do feto. Esse mecanismo identifica material genético que não pertence ao bebê.
Mais do que documentar um caso raro, esse relato mostra que a ciência, apesar de conhecer o funcionamento da genética e da hereditariedade, ainda se defronta com sutilezas da natureza pouco conhecidas.
FONTE: Luis Fernando Correia Especial para o G1

